O ritual do diagnóstico do câncer de próstata [Completo]

Como já escrevi, o fantasma do câncer participa da minha vida, me assombrando há muito tempo. Muitas vezes teve o papel de coadjuvante, junto com tudo mais que envolve viver, como rotina, trabalho, família, alegrias, tristezas, decepções e felicidade. Apesar de não ser o ator principal, sempre esteve lá, me incomodando.

Eis que um dia meu pai foi diagnosticado com câncer de próstata. Passei então a visitar um urologista regularmente desde os 40 anos, quando descobri que passei a ser um caso de atenção, devido a uma possível predisposição genética.

Em uma das revisões anuais, à época aos 40 e poucos anos, tive um primeiro resultado de PSA fora do padrão para a idade. Lembro até hoje, era 1,6. À época, com tudo mais estando dentro da normalidade (incluindo o exame de toque), passei a ser um caso de mais atenção ainda.

É importante registrar que a predisposição genética pode ou não resultar em câncer, existindo muitos casos de não ocorrência em descendentes. Caso o seu pai ou o seu avô tenham tido, não significa necessariamente que você terá. Caso você tenha algum ascendente com câncer de próstata, não hesite, comece a consultar um urologista a partir dos 40 anos.

Passaram-se alguns anos com a rotina de revisões anuais, quando, aos 50 anos, tive um primeiro incremento mais significativo do nível de PSA, que passou para pouco mais de 4 (os níveis vinham variando lentamente, de 1,6 até 2,6).

Pela primeira vez senti um medo mais real do que fantasmagórico da possibilidade de um diagnóstico de câncer. Passei pela primeira vez pelo que chamo de ritual de diagnóstico, que resultou em um desfecho feliz de ausência de neoplasia.

Três anos depois, o ritual se repetiu a partir de um resultado de PSA de 6,7, quando então o ritual terminou com um resultado nada desejado: carcinoma, ou seja, câncer.

Coisas tão ruins como esta, um diagnóstico de câncer, sempre eram infortúnio de outras pessoas, até que um certo dia soou um alarme, o chão se abriu e a pessoa diagnosticada era eu.

Cheguei a pensar que este parágrafo fosse desnecessário, um excesso de redundância, mas resolvi escrevê-lo. Trata-se de ressaltar mais uma vez a importância da visita periódica, anual, ao urologista. Por mais óbvio que possa parecer, por mais natural que soe, e por mais inconcebível que seja para mim, ouve-se falar bastante que muitos homens a partir dos 50 anos simplesmente não visitam um urologista regularmente.

Inacreditável!

É imprescindível registrar (mais uma vez) que mesmo com o diagnóstico confirmado, eu não sentia absolutamente nada diferente, nenhum sintoma físico. Há homens que pensam que só deveriam procurar um urologista se algo estiver anormal, como, por exemplo, sentindo algum tipo de ardência ou dificuldade para urinar. Absoluta bobagem, não é verdade.

De volta ao ritual do diagnóstico, meu objetivo em descrever este processo, com suas etapas, é o de esclarecer e explicar como funciona a investigação do câncer de próstata. Não sou médico e o que escrevo neste capítulo não tem autenticação ou embasamento científicos, baseia-se no que aprendi com a minha experiência pessoal, que se diga de passagem, já não é tão pequena.

Em consulta, o médico solicita um exame de PSA (um exame de sangue); conforme o resultado, e de acordo com seus critérios, pode realizar o (absurdamente temido) exame de toque retal. Talvez pela cultura machista, alguns homens temem este exame como se fosse uma ameaça à sua masculinidade. Confortável não é, mas em certas situações é imprescindível.

Alguns indicadores avaliados em conjunto pelo médico levam a um possível aprofundamento do diagnóstico, como idade, predisposição genética, nível de PSA e avaliação do exame de toque. A sequência de investigação é feita com vários passos, caso alguma suspeita seja levantada.

Foi o ritual que eu segui todas as vezes e acredito, portanto, que seja o padrão para todos os casos. Como já citei, eu falo de experiências pessoais, este texto não é um compêndio médico, e podem existir urologistas que procedam de forma diferente.

O primeiro exame é uma ecografia de abdômen e de bexiga, para o qual, entendo eu, um dos principais objetivos é o de verificar o tamanho da próstata, alguma possível anormalidade mais destacada e o resíduo de urina que fica na bexiga após urinar. É um exame relativamente rápido e a espera pelo diagnóstico nunca me causou grande desconforto ou impaciência. Eu sempre fazia este procedimento anualmente em um check-up geral, então foi algo rotineiro para mim.

Na sequência, marca-se nova consulta com o médico. Nesta nova visita, pode ser solicitada uma ressonância magnética da próstata. Eu já tinha feito ressonância antes, alguma investigação relacionada a uma lesão causada por corrida, se não me engano.

Muitas pessoas queixam-se de claustrofobia pelo “tubo” da ressonância, mas isto não tinha me incomodado. Na primeira vez que me foi solicitada a ressonância da próstata, lembro que pensei “não sei porque nas outras vezes não foi pedida, só para eliminar qualquer dúvida”.

Agendei o exame, cheguei no local, segui o procedimento de espera pelo registro, fiz o registro, esperei pelo exame, tic, tac, tic tac… até ser chamado. Roupa trocada, com aquele avental de laboratório, por curiosidade eu perguntei para a assistente:

-Quanto tempo leva?

Eu perguntei pensando em alguma coisa do trabalho, se daria tempo de estar de volta ao escritório em 45 minutos ou uma hora (era o que passava pela minha cabeça).

Quando veio a resposta:

-Esta ressonância é uma das mais demoradas. Leva entre 40 e 50 minutos.

Demorei um pouco para assimilar, até pensei que tinha ouvido errado. Pedi confirmação. Era isto mesmo. Nunca fui claustrofóbico, quando tinha feito uma ressonância de outro tipo antes, era coisa de 10 a 15 minutos, não lembro de ter tido nenhuma sensação ruim.

Desta vez, contudo, os tais 40 minutos me impactaram. Lembro como se fosse hoje da sensação que eu comecei a sentir quando a maca deslizava para dentro do “tubo”.

Logo antes de entrar tive outra “surpresa”, quando me foi dito que eu não poderia mexer as pernas nem movimentar o abdômen de forma alguma, ou teria que começar tudo novamente. Tossir, nem pensar.

A sensação de entrar no “tubo” para ficar por 40 ou 50 minutos, já com vontade de mexer as pernas desde o início, não é algo confortável de se enfrentar. Pode parecer exagero, até frescura, então proponho que você, leitor, deite-se agora e fique 5 minutos sem movimentar as pernas, ficando totalmente imóvel. É fácil?

O pensamento que começou a me passar pela cabeça, assim que o exame começou, com aquele barulho de turbina e batidas misturado com um zumbido elétrico, era “quanto tempo será que já passou?” Tentei começar a contar os segundos, sem saber se minha contagem era rápida ou lenta. Quando eu chegava lá pelos 200 significaria que teriam se passado 3 minutos e pouco. Ou será que era bem menos? Quanto tempo será que ainda faltava? Junto vem uma vontade quase incontrolável de mexer as pernas…como seria bom dobrar os joelhos! Tenho que pensar em outra coisa

Olho para cima, tem um tubo a centímetros dos meus olhos, que parece estar ficando menor. Tentava encher o pulmão de ar e parecia que não dava.

Aquela foi a minha primeira ressonância de próstata logo depois do primeiro “salto” do nível de PSA. Eu estava muito ansioso pelo resultado, mas mesmo assim durante o exame eu pensei mais de uma vez em apertar a campainha e pedir para interromper. “Azar, não vou conseguir aguentar até o fim, vou sair daqui e depois vejo o que fazer”, era o que eu mais pensava. Acho que foram os 48 minutos mais longos da minha vida (foi o tempo que me disseram que demorou, quando eu perguntei depois).

Aí veio o próximo passo do ritual, que é esperar pelo resultado, ou seja, o laudo da ressonância. Como eu sempre fui impressionado e assombrado pelo assunto, sendo a primeira vez, a espera foi muito desconfortável, me deixando muito impaciente. O laudo seria enviado por e-mail, e a 2 dias do prazo prometido passou a ser bem tenso olhar a caixa de entrada do correio eletrônico, esperando pelo tal laudo (esperar resultados, diga-se de passagem, depois acabou virando meio que rotina para mim).

No dia que apareceu o remetente na caixa de entrada, lembro bem da sensação, aumento dos batimentos cardíacos e respiração mais pesada, na mais perfeita manifestação clássica de ansiedade.

Este primeiro laudo falava algo como haver uma sugestão de sinais de alterações nas células e tecidos, as quais não podiam ser identificadas. Indicava, portanto, que poderia haver algo, mas não era possível confirmar.

Como isto se caracterizava como uma suspeita a ser investigada mais a fundo, o próximo exame indicado pelo médico foi a biópsia.

Na linha de esclarecer como as coisas funcionam, eis como é uma biópsia de próstata: é um exame transretal realizado com auxílio de ultrassonografia, cujo objetivo é, literalmente, a retirada de pedaços da próstata para análise patológica de amostras de tecidos.

O objetivo de uma biópsia é o de verificar se existem células diferenciadas, ou seja, diferentes das células normais da próstata – sugerindo câncer. São cerca de 15 pedacinhos coletados, um pouco menos, um pouco mais.

O exame em si não causa grandes desconfortos, quando realizado com sedação, o que na verdade, para nós leigos, tem o mesmo efeito de uma anestesia geral.

A preparação é relativamente simples, toma-se um antibiótico a partir da véspera e posteriormente por alguns dias, além de se fazer jejum de 8 horas antes do exame. E só. Na hora do exame, apagão geral, e quando se abre os olhos, passou. Nenhuma dor, nenhum desconforto.

A não ser quando…

Na ocasião da segunda biópsia que fiz, devido a mais uma elevação de PSA e a uma suspeita mais significante detectada em uma nova ressonância (mas ainda não conclusiva), eu tinha resolvido buscar outra opinião, trocando de médico, seguindo uma recomendação de um conhecido. O procedimento sugerido por este médico, contudo, me deixou um tanto traumatizado.

Segundo ele, que se diga de passagem é um urologista muitíssimo conceituado, o ideal seria fazer a biópsia em um laboratório onde o equipamento de ultrassom era melhor, com imagens mais nítidas, o que aumentaria a probabilidade de encontrar visualmente alguma alteração para fazer a coleta nos pontos certos. Em outras palavras, haveria uma chance maior de conseguir achar os pontos indicados pela ressonância.

Só que…

Como a biópsia seria feita em laboratório, não havia estrutura hospitalar, e portanto, não haveria anestesista disponível. Em outras palavras, a biopsia teria que ser feita sem sedação.

A escolha era minha, eu poderia optar por fazer em hospital, como na ocasião anterior. Na opinião dele, contudo, a visualização da ultrassonografia seria melhor se fosse realizada no local onde ele indicou, e talvez tivesse sido por este motivo que nada tivesse sido detectado na primeira biópsia.

O que faz um leigo nessas horas, ansioso por uma biópsia mais precisa? Aceita a sugestão. Aceitei.

Se a ressonância foi difícil, os leitores podem tentar imaginar uma biópsia sem sedação, com o paciente totalmente desperto e nenhuma anestesia. Eu confesso que que é embaraçoso demais descrever o exame em detalhes, mas a sensação de estar consciente e sentir quando pedaços são extraídos, com um equipamento que faz cortes com impactos, é indescritível.

Já ouvi de mulheres e li que a biópsia de mama é similar, por ser feita em laboratório, sem sedação. Obviamente não consigo e não pretendo comparar, talvez seja igualmente algo próximo a uma sessão de tortura medieval…

Depois deste exame, veio uma nova espera (impaciente) pelo resultado. Impactado pelo aumento do PSA e pela sugestão mais contundente da ressonância de que algo poderia estar errado, a espera pelo laudo da biópsia foi mais tensa ainda. Lembro muito bem do dia em que chegou o e-mail com o resultado, eu estava na academia fazendo musculação.

Ao ver a mensagem, sentado em um equipamento, lembro claramente quando eu estava abrindo o PDF, a ansiedade mais forte do que na primeira vez. Uso óculos de leitura, mas obviamente não os tinha na academia. É bem difícil ler no celular, ainda mais sem óculos, as letras ficam todas embaralhadas, tive que dar zoom na tela até encontrar as palavras tão desejadas: “Ausência de neoplasia”. Recordo nitidamente que fiquei de pé e percebi que estava tonto, não tem como descrever a sensação. Foi uma das melhores que eu consigo lembrar de toda a minha vida, aquela de saber que não tinha câncer.

Neste meio tempo entre a ressonância e o laudo final da biópsia eu lembro que senti bastante o impacto emocional, a ponto de deixar de fazer algumas coisas por absoluta falta de motivação, sentido até uma certa prostração para as atividades do dia-a-dia. Se eu olho hoje minhas estatísticas de corrida do GPS, vejo um intervalo em que fiquei sem correr por uns dois meses naquele período, o que confirma que nem uma das coisas que mais gosto eu tinha vontade de fazer.

Voltando ao médico com o laudo da biópsia, bem feliz, recebi uma explicação bem detalhada, que me deixou desanimado. Como já comentei, eu fui aprendendo muitas coisas ao longo da minha jornada, sendo que alguns destes aprendizados nem sempre foram agradáveis.

Em resumo, aprendi que:

O fato de uma biópsia dar resultado negativo não significa que não haja alguma coisa, significa apenas que alguma coisa não foi encontrada. Significa apenas que as amostras coletadas não têm células cancerígenas.

O fato de que as amostras estejam livres de células cancerígenas pode ser casual, visto que em algumas situações é muito difícil que a coleta seja feita exatamente na região indicada pela ressonância. Em casos onde um câncer não esteja espalhado por toda a próstata, pode acontecer esta situação.

Leigamente falando, são possibilidades meio aleatórias. É claro, existe um ponto positivo em um diagnóstico negativo, visto que a próstata inteira não está tomada pelo câncer. Não significa, contudo, que não se tenha a doença.

Que merda!

Não me livrei dos fantasmas, nem com uma biópsia negativa. A conclusão é que eu teria que continuar um monitoramento de PSA. Mesmo sendo relativamente alto, se o nível não variasse, não haveria motivo para preocupações. Era questão de fazer isto semestralmente e manter a rotina anual de consultas.

E assim foi, segui fazendo exames de PSA a cada seis meses. Níveis estáveis, sendo que em um dos exames houve até redução, pequena é verdade, mas era uma redução.

Que coisa boa. Foram dois anos em que os fantasmas tinham virado fantasminhas camaradas e eu quase esquecera deles.

Depois da experiência com o último médico, resolvi trocar novamente.

Busquei novas opiniões e indicações de conhecidos e marquei nova revisão, com um novo profissional. Novo ciclo, novo exame de PSA. Intimamente eu tinha convicção de que, com a última redução medida, era um ritual que se encerraria no início, já que o exame de toque não indicou nenhuma alteração (neste caso, dado o histórico, o médico fez o exame de toque já na primeira consulta).

O resultado deste último exame de PSA foi inesperado. De 4,2 cerca de seis meses antes, o nível passou para 6,7. Algo realmente inesperado e suspeito estava acontecendo. Eu soube deste resultado no dia 23 de julho de 2019, quando foi dada a largada para minha jornada.

Exposto o meu trauma passado sobre a biópsia, o meu novo médico me tranquilizou: “não se costuma fazer mais biópsia sem sedação”. Ele recomendou a ressonância em uma instituição que tinha uma tecnologia que permitiria, se necessário, usar as imagens da mesma em fusão com ultrassom em uma posterior biópsia, que seria assim mais precisa. Era uma analogia a usar as imagens da ressonância como um mapa de GPS para navegar quando fosse realizada a biópsia.

Para esta nova ressonância, contei com ajuda de um profissional para tratar da ansiedade e, por recomendação dele, me preparei com um ansiolítico; devo confessar que a experiência foi muito mais aceitável. Foi pior a antecipação do que o exame. A ressonância em si pode ter sido menos sofrida, porém o mesmo não posso dizer do resultado da mesma.

Depois de nova espera pelo laudo com uma boa dose de ansiedade e impaciência, angustiante devido ao resultado do PSA alto, veio o laudo, desta vez com uma indicação de alta probabilidade de neoplasia (câncer), dado um diagnóstico representado por uma sigla de PI RADS-4.

Sem entrar em detalhes técnico-científicos, que não domino, um PI-RADS é uma escala internacional que vai de 1 a 5, sendo que 1 representa uma probabilidade muito baixa e 5 muito alta de diferenciação de células, ou em outras palavras, de haver um câncer.

Literalmente, um PIRADS-4 significa “clinicamente um câncer significativo é provável”.

Para mim, este resultado soou como determinístico. Embora eu tentasse me apegar a uma chance de não ter câncer (ainda não era clinicamente uma confirmação, pois dependia de nova biópsia) eu comecei a me preparar para aceitar que era provável que eu tivesse. Por mais incrível que possa parecer, a dúvida talvez fosse tão angustiante quanto a possibilidade de confirmação.

Uma possibilidade alta não era ainda um diagnóstico comprovado, mas o embate mental era muito pesado. Ao mesmo tempo em que eu começava a me preparar para a fatalidade, uma voz de esperança raquítica e desidratada ainda tentava me dizer que poderia não ser nada.

Quando eu percebia, estava fantasiando abrir o e-mail do laudo e ler “ausência de neoplasia”, pensando em repetir a sensação já vivida anteriormente. Que bom que vai ser, pensava eu. Em seguida, vinha outro pensamento mais forte, como o típico clichê do diabinho falando no outro ouvido: “mas como não vai ser nada com este resultado da ressonância? É claro que tem alguma coisa”.

É impressionante como o inconsciente humano (ou pelo menos o meu) não consegue lidar bem com qualquer ameaça ao bem-estar ou à vida. E é exatamente isto que o arquétipo de câncer representa, uma lembrança da infalibilidade da morte. Por mais que se tente racionalizar sobre os avanços da medicina, sobre as probabilidades de cura quando detectado no início, o inconsciente é mestre em perturbar quando incomodado. Por mais estranho que possa parecer, eu não sentia medo de morrer, apenas de ter câncer.

Se é que algum fato positivo pode ser citado neste novo ciclo do ritual, é que o e-mail com o laudo chegou inesperadamente dias antes da previsão. Eu não estava sequer esperando, quando em uma segunda-feira pela manhã, no trabalho, apareceu o resultado na tela, dentre outros e-mails do dia-a-dia. Até demorei um pouco para perceber o que era, de tão inesperada que foi a chegada. Inesperada também foi a minha reação, quase que automática.

Não sei como, ou talvez por “já saber”, abri imediatamente o PDF, sem hesitar, e na tela maior do computador foi mais fácil localizar o resultado na parte final. Logo achei as palavras “carcinoma” e “neoplasia”. De imediato, sabendo sem querer aceitar, fui para o navegador e googlei as palavras.

Foi então que senti uma sensação jamais antes experimentada na minha vida, diametralmente oposta àquela quando eu tinha lido um resultado que dizia que eu não tinha câncer. Agora eu sabia que tinha.

Lembro bem que a tela de resultados do google parecia toda borrada, e só apareciam para mim, como se brilhassem destacadas, as expressões “carcinoma é um tipo de câncer que começa em células…” e “como outros tipos de câncer, carcinomas são células que se desenvolvem sem controle…

Honestamente eu tenho dificuldades em expressar com palavras um momento como aquele, o qual não desejo para ninguém. Acredito que não exista pessoa que não seja profundamente impactada pela revelação de que tem câncer. Tentando revisitar aquele instante, não consigo descrever o sentimento. Obviamente é um dos momentos da vida que jamais serão esquecidos, não tem como.

Aquela segunda-feira, 02 de setembro de 2019, jamais será esquecida por mim, até o fim da vida. Eu não sei se é imaginação minha ou se é real, mas parece que um dos pensamentos que me passou pela cabeça foi de alívio, pois pelo menos este tipo de ritual iria chegar ao fim, acabaria. O que me confortava era a possibilidade de ter um diagnóstico no início do desenvolvimento da doença e que a probabilidade de cura, neste caso, seria muito alta. Por outro lado, esta questão de probabilidade alta de cura é bem relativa para quem tem a doença, vou comentar sobre isso no próximo capítulo.

Lembro bem que pensei em como eu iria contar para a minha esposa e meu filho. Em seguida pensei no meu pai, contar ou não contar? Ele já passou por isto, será que eu deveria contar? Estranho como um momento tão impactante deixe na memória sentimentos tão sem detalhes, como se fossem sentidos nas entranhas, mas com as imagens fora de foco.

Bem, o ritual precisava continuar.

O próximo passo era retornar ao médico e definir o tratamento, que pelo que eu já tinha me informado, provavelmente seria uma cirurgia de remoção total da próstata.

Na consulta de retorno ocorreu outro momento marcante. Foram apenas dois dias entre a ciência pelo laudo e a consulta. Ele já tinha recebido o resultado diretamente do laboratório, então me perguntou se eu já o tinha lido. Sim, já sabia do resultado, disse a ele.

Mesmo assim, ele seguiu o protocolo, explicando o resultado, e ao final falando a expressão “…é um câncer”. Mesmo que eu já soubesse, foi impactante ouvir aquilo.

O laudo de uma biópsia de próstata também é baseado em uma escala, chamada Gleason.

É bem complicada para um leigo como eu explicar, mas, para resumir, é uma escala entre 2 e 10, sendo que uma pontuação até 6 pode ser considerada de baixo grau. 7 é considerado intermediário e, entre 8 e 10, de alto grau, ou câncer de alta agressividade.

De acordo com a biopsia, fiquei classificado como Gleason 7 (3+4).

Baseado em um cálculo de que o 7 de meu exame resultou de 3 + 4 (que é um resultado diferente do que 7 resultando de 4 +3), a explicação do médico foi de que se tratava de um câncer de intensidade média, e de acordo com os outros parâmetros relatados pelo laudo, teoricamente estaria contido, restrito à próstata e, provavelmente, não teria afetado outros tecidos externos.

A conclusão é que, dentre os piores resultados, este era o menos ruim. Quer dizer, se fosse Gleason 6 ou menos, talvez nem fosse necessário tratar, poderia ser apenas acompanhado (quando ele falou isto eu pensei comigo mesmo, “ainda bem que não é 6, pois a aflição persistiria por mais tempo”).

Porém…

Seguiu-se a explicação de que mesmo com a retirada completa da próstata e das vesículas seminais, estando os nódulos restritos e contidos (eram 3 tumores na verdade), existe uma probabilidade de que alguma célula possa ter “escapado” para a corrente sanguínea e contaminado algum outro tecido, deixando algum resíduo de câncer mesmo após a remoção completa. Neste caso a sequência do tratamento deveria ser radioterapia.

Foi aí que eu pensei comigo: “não acredito, quer dizer que nem tirando tudo o pesadelo vai acabar? ”. Com esta eu não contava, pois eu já me preparava para encarar a cirurgia (mesmo com o medo das possíveis sequelas) e logo depois ficar livre. Fiquei abatido, e muito.

Para esclarecimento, o médico apresentou as opções de tratamento, sendo uma delas a realização de radioterapia ao invés da cirurgia de remoção. É um processo menos radical do que a remoção total da próstata, porém é mais longo, incerto, sujeito aos mesmos riscos e igualmente sem resultado garantido.

A recomendação dada, comum para pacientes na minha idade, foi pela cirurgia, embora a decisão final sobre o tratamento fosse minha.

Optei pela cirurgia, e felizmente pelas circunstâncias, pude fazer a opção pela tecnologia robótica, que é menos invasiva, diminuindo o tempo de recuperação e reduzindo riscos de sequelas.

E os riscos, quais são?

Isto foi deixado bem claro nesta consulta, foram esclarecidos de forma bastante protocolar, mas empática. São dois grandes riscos, incontinência urinária (e necessidade de uso de fraldas) e impotência sexual, também chamada de disfunção erétil. O primeiro é devido à uretra ser “reconectada” à bexiga junto ao esfíncter, e o segundo pela chance de afetar um nervo responsável pela ereção. Convenhamos que para homem nenhum qualquer destas perspectivas pode ser encarada com indiferença.

De qualquer maneira, o ritual ainda não terminava aí. Antes da cirurgia 4 exames pré-operatórios deveriam ser feitos, 2 tomografias (abdômen e tórax), uma cintilografia óssea e exames de sangue, além de uma consulta para obter um atestado de cardiologista. As tomografias tentam identificar se algum órgão apresenta alguma alteração, e a cintilografia óssea busca avaliar se há alguma suspeita de câncer nos ossos.

Com uma confirmação de câncer, muito abatido, foram duas novas esperas por laudos que testaram ao limite a minha resistência mental.

Imagine, leitor, pensar na possibilidade de ter uma metástase para os ossos ou para o pulmão…é muito assustador. Felizmente, no meu caso, estes novos exames apresentaram resultado negativo. Em certo momento cheguei a pensar que era um alívio ter um câncer só na próstata. De certo modo era.

***

A partir do momento que eu tomei conhecimento da confirmação do câncer, não consigo descrever o sentimento. Entrei em uma espécie de hibernação acordado, mesmo tendo tentado continuar com a vida normal, indo trabalhar, indo à academia fazer musculação e correndo. Parece que algumas vezes eu via o mundo passar em câmera lenta, às vezes dava uma sensação estranha de não conseguir se conectar com o presente. É muito complicado de descrever, mas tem momento em que parece que se é tomado pelo pensamento de uma forma tal que nenhum outro sentido funciona direito. Pensamento na cirurgia, nas possíveis sequelas, no que podia dar errado…e se der tudo certo, quando a vida voltaria ao normal?

É muita carga, nesta altura o fantasma virou um demônio.

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