Um relato vivido, sentido e compartilhado [Completo]

Preciso confessar, não foi uma decisão fácil. Admito que sempre tive, e ainda tenho, um certo constrangimento quanto a compartilhar sentimentos e emoções.

Até que…

Até que me deparei com uma situação iminente de diagnóstico de câncer de próstata.

Vou relatar a minha jornada pessoal mais à frente, por ora acho importante registrar que decidi escrever, em primeiro lugar para tentar me “auto ajudar”, como uma forma de lidar com a gangorra de pensamentos negativos, onipresentes e opressores, desde a primeira suspeita, passando pela confirmação do diagnóstico e até o desfecho final.

Começarei com algumas informações sobre a próstata e sua função, para em seguida destacar a importância do diagnóstico precoce do câncer de próstata.

Vários tópicos vão tratar de pensamentos e sentimentos que surgiram quando me deparei com a realidade de ter câncer, como medo, esperança e negação.

Em um dos capítulos vou tratar da questão das dúvidas que tive em relação a como falar do assunto (ou não) com as pessoas que me cercam, como a família, por exemplo.

Vou ainda descrever em mais detalhes como funciona o diagnóstico e o tratamento do câncer de próstata.

Acabei encontrando no texto escrito uma forma de “falar” à vontade comigo mesmo, sem censura e sem importunar ou assustar ninguém, em um legítimo monólogo.

Fiz uma experiência e acabei percebendo que escrever me ajudou a aliviar a angustia, certamente por virar uma prática que se transmutou em uma espécie de catarse pessoal. Popularmente costuma-se falar que é importante “botar as coisas para fora”.

Comecei para experimentar a escrita como terapia e percebi que passou a ser uma ferramenta útil para lidar com os picos de ansiedade. Mais à frente vou abordar a curiosa impossibilidade de tentar pensar em não pensar em algo, o que dificulta o controle da ansiedade.

Não menos importante também é citar que boa parte dos conteúdos são resultado de registros e anotações que foram sendo feitos à medida que a linha de tempo do ritual e da maratona se desenrolava (vou explicar o ritual do diagnóstico e a maratona do tratamento), de forma que os pensamentos e suas angustias, relacionados a cada etapa, fossem mais reais – eu cheguei à conclusão de que não conseguiria ser fiel com os sentimentos se escrevesse tudo depois, como por exemplo, depois de curado.

Várias anotações foram feitas quando eu aguardava ansiosamente pelo diagnóstico, outras depois, quando eu tinha a confirmação de ter câncer, mas antes de realizar uma cirurgia de prostactetomia radical. Relendo aqueles registros, consigo reviver de um modo mais claro os sentimentos para tentar relatá-los da forma mais autêntica possível. Consigo relembrar como eu vivia uma mistura de pensamentos temperados por medo e esperança, como se cada um dos temperos se revezasse e prevalecesse ao seu tempo.

Em resumo, minha primeira razão para escrever, portanto, foi a de autoajuda para mim mesmo, com o perdão da redundância.

Outro motivo que me incentivou a escrever é que eu acredito que possa ajudar a esclarecer um pouco sobre a doença e como o diagnóstico e o tratamento funcionam, sob o ponto de vista pessoal, de um paciente.

Estão disponíveis na internet incontáveis conteúdos sobre câncer de próstata, mas a maioria deles é técnico ou escrito por médicos. O que eu me dispus a relatar oferece uma perspectiva diferente do que aquela que resulta de googlar sobre o câncer e ler artigos médicos ou científicos.

Curiosamente, em termos comparativos, me parece que existe muito mais divulgação de informações, esclarecimento e apoio às portadoras de câncer de mama. É claro que são doenças diferentes, com impactos e tratamentos distintos, mas acredito que os homens também tenham direito de ter acesso a mais conhecimento sobre o seu tipo de câncer prevalente.

Vou tratar de como as coisas funcionam por ter passado por elas em uma experiência vivenciada, minha intenção é compartilhar, além de informações, pensamentos e sentimentos. Eu gostaria de ter tido acesso a isto se tivesse sido escrito por outros antes, quando comecei a lidar com esta situação.

Seria ótimo ter sabido se mais gente sentiu o que eu senti e como lidaram com uma circunstância similar. Em outras palavras, eu gostaria muito de ter tido mais informações antes, mas não tinha para quem perguntar.

Sei que isto poderia ter me assustado mais, mas quem sabe poderia ter me tranquilizado?

Talvez pudesse ter me ajudado a fantasiar menos…

Acredito que pudesse ter funcionado como uma espécie de grupo de apoio virtual.

Se teria sido bom para mim, quem sabe seja para outras pessoas?

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